José de Alencar e a capa de Iracema em montagem editorial lado a lado
José Martiniano de Alencar (1829–1877) e Iracema, publicado originalmente em 1865. Montagem: Revista Odysseya.

Todos nós carregamos contradições. Alguns, muitas; outros, em medida menor. O ideal talvez seja reconhecê-las e reduzi-las, embora esse seja um exercício difícil, permanente e nem sempre confortável. A literatura ajuda justamente porque nos obriga a olhar com mais atenção para os outros — e também para nós mesmos.

Nem mesmo os grandes nomes das nossas letras escaparam desse conflito. É o caso do ilustre conterrâneo cearense José Martiniano de Alencar, nascido em Messejana, atual bairro de Fortaleza, em 1º de maio de 1829, e falecido no Rio de Janeiro em 12 de dezembro de 1877.

O indígena como herói nacional

Na literatura, Alencar foi uma das principais vozes do indianismo romântico. Em O Guarani, publicado em 1857, Iracema, de 1865, e Ubirajara, de 1874, transformou personagens indígenas em figuras centrais de uma narrativa sobre as origens do Brasil. Em sua obra, o indígena idealizado assumiu o lugar de herói nacional, enquanto a paisagem, os costumes e os mitos locais ajudavam a construir uma literatura que desejava ser autenticamente brasileira.

É preciso, contudo, distinguir a valorização literária do “índio” romântico da defesa concreta dos povos originários. O personagem alencarino é muitas vezes uma criação simbólica: idealizado, heroico e inserido em um projeto nacional conduzido pelo imaginário do século XIX. Ainda assim, sua presença marcou profundamente a formação do romance brasileiro e a maneira como o país passou a narrar a si mesmo.

O escritor e o político

O paradoxo aparece com mais força quando passamos da literatura para a política. Filiado ao Partido Conservador, deputado e ministro da Justiça, Alencar dirigiu ao imperador Dom Pedro II as chamadas Cartas de Erasmo. Em textos publicados na década de 1860, posicionou-se contra a abolição imediata da escravidão e defendeu uma transformação gradual, conduzida dentro da ordem existente.

Assim, o escritor que elevou o indígena idealizado à condição de símbolo nacional também atuou politicamente em defesa de um status quo sustentado pela escravidão. A contradição não apaga a força estética de seus romances, mas impede uma leitura ingênua de sua trajetória. Admirar uma obra não exige silenciar diante das escolhas históricas de seu autor.

As contradições que reconhecemos

Talvez esse seja um dos maiores ensinamentos da literatura: pessoas brilhantes podem sustentar ideias profundamente equivocadas; obras importantes podem nascer de indivíduos limitados pelas conveniências, pelos interesses e pelos preconceitos de seu tempo. Ler criticamente é acolher essa complexidade sem transformar admiração em absolvição.

Todos nós temos, de alguma maneira, nossas próprias incoerências. A pergunta é se conseguimos percebê-las antes que se tornem parte definitiva de nossas escolhas. Espero que, assim como eu, você procure fazer essa higiene interior por meio das leituras, do diálogo e da disposição sincera de rever certezas.

Abraço, boa leitura e até a próxima Sexta Literária.

Referências: biografia de José de Alencar e bibliografia do autor, publicadas pela Academia Brasileira de Letras; e o estudo José de Alencar, Cartas a favor da escravidão.